A morosidade da Justiça brasileira é um gargalo histórico, um desafio que se arrasta por décadas e impacta milhões de cidadãos e empresas. Com um dos maiores volumes de processos judiciais do mundo, o sistema opera sob constante sobrecarga, resultando em tramitações que se estendem por anos. No entanto, uma mudança sísmica está em curso. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) acaba de nacionalizar a IA “Berna”, uma ferramenta desenvolvida pelo TJGO que promete ser o catalisador de uma revolução na eficiência processual, atacando a dor mais aguda: a lentidão na fase inicial dos processos.
O Que Aconteceu
A “Berna” (Busca Eletrônica Recursiva Utilizando Linguagem Natural) é uma inteligência artificial criada pelo Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) para automatizar a triagem e o tratamento inicial de processos. Sua capacidade reside em ler e interpretar petições judiciais, classificando automaticamente o tipo de ação, os pedidos e as partes envolvidas. Isso permite organizar e distribuir processos de forma mais rápida e padronizada, sugerindo movimentações e trilhas de fluxo interno que antes consumiam horas de trabalho humano. A decisão estratégica do CNJ de nacionalizar a Berna significa que essa IA será disponibilizada para todos os tribunais do Brasil – estaduais, federais e trabalhistas. Não se trata de uma simples replicação; o CNJ padronizará a classificação processual, integrará a Berna ao Processo Judicial Eletrônico (PJe) e estabelecerá parâmetros mínimos para transparência, auditoria e segurança de dados. Em termos práticos, estamos falando da automação de tarefas iniciais altamente repetitivas, liberando servidores e assessores para focar em atividades que exigem discernimento humano e complexidade jurídica, atacando diretamente a entrada do funil processual onde os ganhos de escala são massivos.
A Análise do Alquimista
O movimento de nacionalização da Berna, embora focado em uma única inteligência artificial, é um precursor do que a Centrato AI tem defendido como a era dos “sistemas de inteligência multi-agentes”. Pense nisso: Berna, em sua essência, atua como um agente especializado em triagem. No entanto, o verdadeiro salto quântico na eficiência e robustez não reside em um único algoritmo centralizado, mas na orquestração de múltiplas IAs, cada uma otimizada para uma função específica. Um agente de análise de risco, outro para sumarização de precedentes, um terceiro para identificação de lacunas argumentativas, e assim por diante. Um sistema isolado é eficaz, mas um ecossistema de agentes interoperáveis é transformador. A Berna, ao se integrar ao PJe e operar em escala nacional, estabelece as bases infraestruturais e culturais para que tais “multi-agentes” possam florescer. Ignorar essa progressão é subestimar o potencial disruptivo da IA. Um único agente, por mais sofisticado que seja, é apenas o início; o futuro pertence à sinergia coordenada de inteligências distribuídas, que trabalharão juntas para desmembrar a complexidade e acelerar a tomada de decisão em todas as esferas.
Impacto na Operação
O impacto da Berna transcende a mera automação de tarefas. Sua nacionalização redefine a estrutura operacional do Judiciário sob três pilares críticos: segurança, governança e orquestração.
- Segurança: O tratamento de dados sensíveis em milhões de petições levanta imperativos rigorosos de proteção. A IA deve garantir a confidencialidade e a integridade das informações, prevenindo vazamentos e usos indevidos. A segurança algorítmica é igualmente vital: como mitigar vieses históricos nos dados de treinamento que poderiam reproduzir ou amplificar desigualdades no processo decisório? A responsabilidade por erros sistêmicos também precisa ser claramente definida.
- Governança: A adoção de IA em uma esfera tão sensível exige um arcabouço robusto. Isso inclui a transparência dos critérios de classificação, a capacidade de auditoria algorítmica e a conformidade com o emergente marco legal da IA no Brasil (PL 2.338/2023). Quem monitora o desempenho da Berna? Como se garante sua imparcialidade e explicabilidade? Essas são questões fundamentais para a legitimidade e a confiança pública.
- Orquestração: A Berna não opera isoladamente. Sua integração com o PJe e a reengenharia dos fluxos de trabalho judiciais são cruciais. A automação libera tempo, mas exige que servidores e magistrados adaptem suas funções, passando de tarefas repetitivas para a supervisão, validação e gestão de exceções. A otimização dos recursos humanos e tecnológicos requer uma orquestração inteligente, garantindo que a IA amplifique, e não substitua, a capacidade de julgamento e análise humana.
Conclusão
A nacionalização da IA Berna pelo CNJ é mais do que uma mera atualização tecnológica; é um divisor de águas que acelera a modernização do Judiciário e estabelece um precedente para a integração da inteligência artificial em serviços públicos de larga escala. No entanto, o sucesso desta iniciativa não reside apenas na capacidade técnica da Berna, mas na forma como abordamos os desafios de governança, segurança e ética que a IA inevitavelmente traz. É um convite para uma reflexão profunda sobre o futuro do trabalho jurídico, a redefinição de papéis e a construção de um sistema de justiça mais ágil e equitativo. Esta é a essência da inteligência pragmática: abraçar a inovação sem perder de vista os fundamentos da responsabilidade e do impacto humano. Para aprofundar-se em como a inteligência artificial está moldando o futuro das operações estratégicas e para não perder as próximas análises do Alquimista, assine nossa newsletter e explore nossa metodologia exclusiva de implementação de IA.